FONTES E CHAFARIZES

Fontes e chafarizes da Ericeira, caracterização e história.


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Fonte do Cabo

IMG 2297-Fonte do Cabo

Esta fonte centenária situa-se no largo homónimo. Foi construída originalmente, em 1457, de acordo com uma placa em pedra, dotada de caracteres góticos, encrostada na parte superior do seu espaldar. O emblema, que se situa acima dos caracteres, é de decifração problemática.

Em 1829, foi restaurada a mandado da Intendência das Obras Públicas de acordo com uma inscrição em pedra situada por debaixo da cimalha. Consta que na sua primitiva forma era voltada a poente com frente para a antiga estrada. Na parte traseira possui um túnel, que conduz à nascente, com cerca de 100m. A pequena porta lateral virada a poente dá acesso à mina.

É uma fonte de espaldar, encimada por uma ornamentação de volutas e frontão curvo com um medalhão de estrela de oito pontas no topo. Possui um tanque de cantaria para onde jorram as duas bicas de pedra.

Até à década de 1970 possuía a oriente um tanque de alvenaria que funcionava como lavadoiro público.

Em 1995, a Junta de Freguesia realizou alguns melhoramentos incluindo a electrificação da mina. Recentemente, foi objecto de uma nova intervenção da responsabilidade da actual Junta de Freguesia, de gosto rústico-bacoco, sendo ornamentada com oliveiras centenárias, espécie ‘endémica’ da Ericeira.

De acordo com a lenda, quem beber água desta fonte ficará para sempre seduzido e enamorado pela Ericeira, jamais se podendo libertar desse vínculo.


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Fonte da Fontaínha

Foi construída em 1843 no Bairro Norte e demolida em 1906. Situava-se na parte do lado poente da Rua do Rio Calvo, uns 5 ou 6m abaixo do pavimento da rua e para onde se descia por uma escadaria de pedra.

Em 1906, com as obras de encanamento do Rio Calvo, a água foi conduzida para um marco fontenário que se situava junto do lavadoiro da Fontainha, mandado construir pela Comissão de Iniciativa e Turismo em 1926. No final da década de 1950, a demolição do referido lavadoiro ditou a o fim desta fonte.


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Fonte da Rua do Norte

Esta bonita fonte de água canalizada foi inaugurada em 29 de Dezembro de 1928. Situa- se na Rua do Norte, antiga Rua Serrão Franco, e foi mandada construir pela Comissão de Iniciativa e Turismo da Ericeira. O projecto é do Dr. António Bento Franco. Foi construída em alvenaria. Está coberta por um telheiro. Possui dois azulejos, um tem inscrito a data, 1928, o outro ostenta o emblema da Comissão de Iniciativa e Turismo da Ericeira.


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Fonte da Rua do Ericeira ou do Casino

F. Casino

As obras para a construção desta esbelta fonte de água canalizada, sita no lado poente da Rua do Ericeira, começaram em 23 de Agosto de 1926, por mandado da Comissão de Iniciativa e Turismo da Ericeira. O projecto é do pintor Alberto de Sousa, grande amigo da Ericeira. Foi inaugurada na manhã de 21 de Julho de 1927.

Possui um tanque, em semicírculo com volutas, de mármore. No espaldar pintado a azul e branco apresenta um painel em azulejo com o emblema da Comissão de Iniciativa e Turismo da Ericeira. O azulejo abaixo ostenta a data ‘1926’. Possui duas torneiras.


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Fonte dos Golfinhos

Em 11 de Agosto de 1925 iniciaram-se as obras de construção desta singular fonte de água canalizada, no Largo dos Ferreiros, por mandado da Comissão de Iniciativa e Turismo da Ericeira. O projecto é do arquitecto A. Ferreira Quaresma. Foi inaugurada às 9h, de 18 de Julho de 1926.

F. Golfinhos-4

O tanque trilobado, de cantaria em pedra de lioz, encontra-se envolvido por um murete de protecção com bancos forrado com azulejos de xadrez verdes e brancos. A cobertura, de cimento, forrada a azulejos amarelos e brancos, é suportada por três colunas de mármore.

A coluna central, em cimento, ostenta três tritões de cimento moldado. Das respectivas bocas emerge a canalização que suporta as três torneiras. Actualmente, funciona apenas com uma torneira.

No espaldar dos bancos e ao centro encontramos o emblema da Comissão de Iniciativa e Turismo da Ericeira em azulejo, emoldurado a amarelo e azul e datado de 1925.

Em 1995, a Junta de Freguesia levou a cabo alguns melhoramentos (pintura e azulejos).


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Fonte de S. Sebastião, por vezes designada Bica de S. Sebastião

Esta fonte situa-se no extremo norte da vila, junto à Capela de S. Sebastião, a meio das escadas que dão acesso à praia de S. Sebastião.

Em 5 de Julho de 1841, a antiga fonte existente em S. Sebastião foi reparada segundo Jaime Lobo e Silva.

Em Abril de 1911, Hermano Franco de Matos, natural da Ericeira e grande benemérito da vila, mandou proceder às necessárias reparações da escadaria e Bica de S. Sebastião. A obra incluiu a construção de uma nova canalização, para desvio das águas, e das escadarias de pedra e alvenaria, que passaram a ligar a escada antiga à praia.

Em 27 de Setembro de 1916, as águas da Fonte de S. Sebastião encontravam-se inquinadas por infiltrações vindas da fábrica de conservas que se situava próximo.

As análises foram feitas pelo Subdelegado de Saúde a pedido da Junta de Paróquia.

Em 1943, de acordo com o jornal ‘O Concelho de Mafra’, a água era potável.

Possui uma pia escavada no solo para onde jorram as águas. O espaldar está caiado de branco e orlado a azul., encontrando-se encimado por um ‘telheiro’ de duas águas em cimento pintado de azul.

Na década de 1990, a Junta de Freguesia, procedeu a alguns melhoramentos e mandou pintar no referido espaldar, as suas iniciais alinhadas segundo a vertical, ‘J F E’, a nosso ver sem qualquer fundamento.


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Fonte do Rego e Fonte da Praça dos Condes da Ericeira

A Fonte do Rego, sita no Alta da Bandeira, foi mandada construir, em 1803, pelo padre ericeirense, Manuel Franco da Costa Dias, a instâncias e por conselho do Bispo de Coimbra, que vinha a banhos à Ericeira.

A Câmara em troca da concessão das vertentes das águas do Outeiro para o prédio do referido padre, denominado ‘a Malveira’, obrigou-o a construir, à sua custa, uma Fonte Pública, no Alto da Bandeira, e a levar água até ao Hospital, canalizando os restos para a Fonte da Lua ou da Bica. O prédio designado ‘a Malveira’ situava-se no no 4 da Rua dos Ferreiros. Mais tarde veio a designar-se Quinta da Palmeira e posteriormente Urbanização da Palmeira, desse tempo subsiste apenas a palmeira centenária.

A fonte foi erigida no topo do antigo cemitério da vila, local que, até 2008, serviu de jardim-de-infância e se situa a este da igreja matriz.

É provável que a fonte tenha sofrido alguma intervenção, na década de 1820, quando por mandado da Intendência das Obras Públicas se iniciaram, em 25 de Setembro de 1826, os trabalhos de reparação das fontes e aquedutos da Ericeira a cargo do arquitecto Amâncio José Henriques.

Em 12 de Setembro de 1840, a Câmara ordenou a venda em hasta pública da cantaria do frontispício, pois a fonte fora demolida.

A nova fonte foi construída da parte de cima da actual Estrada Nacional 247, a norte do actual lavadouro, junto à estrada para Fonte Boa dos Nabos.

Em 1893 terminaram as obras de canalização das águas de Fonte Boa para a Ericeira, começando a jorrar na Fonte do Rego e no marco centenário situado na Praça do Conde da Ericeira. O marco fontanário foi destruído na década de 1960, quando o Jardim sofreu idêntico destino.

Na década de 1920, a Comissão de Iniciativa e Turismo mandou construir um lavadoiro público, entre a fonte e a Estrada Nacional 247.

Na década de 1960, a Fonte do Rego tinha um espaldar rectangular de alvenaria com duas bicas em pedra. As águas jorravam para um tanque rectangular de cantaria.

Na década de 1980, a fonte foi absorvida aquando da construção do actual lavadoiro. Fonte da Lua ou da Bica

Esta fonte situa-se, do lado nascente, no início da descida norte da Praia da Ribeira ou dos Pescadores, subjacente ao Forte de S. Pedro da Ericeira. Da parede jorra uma bica em pedra para o tanque rectangular igualmente de pedra.

A designação Fonte da Bica deriva do nome de uma bica que terá existido a meio desta descida e terá sido demolida aquando da construção da muralha inferior das arribas, depois de 1896. Pouco ou nada se sabe sobre a história deste fontanário (ver Fonte do Rego).


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Fonte de Santa Marta e Fonte do Pingo

F. Santa Marta

Em 1868, de acordo com António Bento Franco, existia, no Largo de Santa Marta, a Fonte do Pingo. Possivelmente, desta fonte brotaram as águas de Santa Marta. Das antigas nascentes existentes na falha tectónica das furnas, apenas uma resiste ao tempo e em muito mau estado de conservação.

A origem destas águas e dos seus benéficos efeitos perde-se na imensidão dos tempos, não tendo sido descobertos até ao presente. Provavelmente, a existência dos milagres

que levaram à edificação da Ermida, que mais tarde passou a Capela de Santa Marta, está indubitavelmente associada às águas milagrosas de Santa Marta.

Em 1895, António Lopes da Costa adquiriu e mandou murar um terreno situado na área do que em outros tempos se chamou o mato de Santa Marta. Passado algum tempo recuperou um poço para obter água potável, mas em vez desta apareceu-lhe água fortemente mineralizada, à profundidade de dez metros.

Em 28 de Janeiro de 1897 foi efectuada a primeira análise das águas por C. Von Bonhorst, que as classificou como “Águas mesosalinas, cloretadas sódicas, nitro sulfo carbonatadas”, apresentando grande estabilidade na composição, o que permitiu o seu engarrafamento. Em Outubro, Câmara Pestana fez as análises para determinação do resíduo seco e as análises bacteriológicas.

Através de alvará régio, emitido a 20 de Janeiro de 1898, foi concedida uma licença para exploração das águas minero-medicinais de Santa Marta, por tempo ilimitado, a António Lopes da Costa, industrial e morador em Lisboa.

As águas minerais foram introduzidas no mercado lisboeta, em farmácias e drogarias. Para tal foi aberto um depósito geral na Rua do Almada no 124.

No início, as águas eram fornecidas gratuitamente, em qualquer quantidade, a quem as requisitasse. Em troca, solicitava-se o envio dos atestados reconhecidos declarando-se em que doenças se tinham obtido as melhoras.

Em 1899, foi publicada uma pequena brochura com 23 atestados particulares, além das análises à água.

No local da nascente, existiu uma construção em forma poligonal que a protegia. Esta construção seria reformulada pouco tempo depois, sendo construídos, a partir do corpo central, dois corpos laterais com varandins.

Em 1906, o médico inspector, Tenreiro Sarzedas, em missão oficial, visitou as instalações informando que a água na estância era aproveitada como bebida e para a pequena exportação que se fazia em garrafas e principalmente em garrafões. As águas minero-medicinais chegaram a ser comercializadas em garrafas de um quarto de litro. Também era usada em banhos, mas nos domicílios, pois os interessados tinham que adquiri-la na fonte.

Em 1916, António Bento Franco, grande defensor dos efeitos curativos destas águas, apresentou a sua tese de fim de curso, sobre as águas de Santa Marta, à Faculdade de Medicina de Lisboa.

Em 1918, Charles Lepierre procedeu à análise da radioactividade. No mesmo ano, a publicação ‘Águas e Termas Portuguesas’ (1918), informa-nos que a exploração passava a ser feita pela empresa Beirão, Magalhães & C.a, “para a qual Lopes da Costa transferira a concessão.

Em 1921, as termas eram propriedade de João dos Santos Beirão. Em 1928, com o falecimento do concessionário, as termas encerraram.

Em 1931 a concessão foi adquirida pelo industrial de mármores, Torcato Pardal Monteiro.

Em 1933 a Comissão de Turismo da Ericeira entrou em negociações com o proprietário, Pardal Monteiro, para a aquisição do Parque de Santa Marta.

Em 1936, Pardal Monteiro constituiu uma sociedade para exploração das águas de Santa Marta com o Tenente-coronel José Augusto Sá da Costa. Pardal Monteiro mandou construir um pavilhão termal com balneário, segundo o projecto do seu filho, o Arquitecto Porfírio Pardal Monteiro.

Em 1938, o balneário estava em funcionamento, continuando aberto até à estação balnear de 1947, quando encerrou definitivamente.

Em 1955, a Câmara Municipal de Mafra, presidida pelo Capitão João Lopes, em colaboração com a Junta de Turismo da Ericeira, presidida por Afonso Lucas, adquiriu o Parque, as Termas de Santa Marta e alguns terrenos contíguos. Nesse ano abriu o parque. Para as nascentes foram projectados novas captações que nunca chegaram a concretizar-se.

O ‘Anuário’ (1963) informa-nos que as águas tiveram novo alvará, publicado no D.G. no 117, 3a série, de 16 de Maio de 1956, passado a favor da Câmara Municipal de Mafra.

Esta situação manteve-se até à década de 1960. Daí em diante, embora o Parque de Santa Marta continuasse aberto ao público, a exploração das águas minerais foi sempre adiada e em 1984, por despacho ministerial, de 23 de Maio, foi considerava abandonada a sua exploração termal.

Em 2001, a Câmara Municipal de Mafra abriu um Concurso de Ideias para reabilitação do Parque de Santa Marta. Foi premiado e eleito, o projecto dos arquitectos Carlos Rui Sousa e Rui Rosa.

Em 2005, o balneário desenhado por Porfírio Pardal Monteiro foi demolido. No ano seguinte, iniciou-se a construção do projecto premiado. No que respeita à exploração das águas minerais de Santa Marta nada foi considerado!


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Fonte da Margarida

F. Margarida-2

A fonte situa-se no sítio da Carrasqueira, no actual limite sul da vila, perto da Estrada Nacional no 247 e no lado oposto ao acesso sul da Praia do Sul.

A fonte insere-se na bacia hidrográfica da Ribeira da Carrasqueira, pequeno curso de água que nasce perto da Lapa da Serra e desagua no extremo sul da Praia do Sul, situada na vertente sul da Serra das Lombas.

O estreito carreiro que nos leva à fonte encontra-se encoberto e obstruído pela luxuriante vegetação envolvente, com predominância de silvas, o que dificulta muito o seu acesso actual.

A fonte está completamente abandonada e em ruínas, encontrando-se praticamente coberta pela vegetação galopante. A pressão urbanística tem vindo a ditar a morte da nascente, pois os terrenos em redor foram impermeabilizados por betão.

O edifício que alberga a nascente está completamente desfigurado, tendo perdido as ameias, portas e janelas.

A fachada muito decrépita, ainda ostenta, em alto-relevo, a imagem de uma bilha, numa alusão a um dos modos como foi comercializada a água. Uma das metades do que foi a porta principal apodrece ao tempo no chão.

No piso térreo, possui duas bicas e um tanque de receptação das águas. As paredes estão decoradas com bonitos motivos florais em rosácea, resultantes da incrustação de cascas de mexilhão. Na parede este ainda se pode observar uma moldura rectangular que nos informa que o edifício foi ‘Construído em 1933’. A moldura da parede oeste anuncia o responsável pela sua construção e concessionário, ‘Martinho Lopes Ferreira’.

F. Margarida-1

Ainda se podem observar, na vertente este, as escadas de pedra que dão acesso ao piso superior e ao telhado. O piso está completamente vandalizado. Há perto de 30/40 anos teria existido uma tentativa de reconstrução do edifício denunciada pela existência de uma placa de betão que cobre actualmente a construção.

A edificação ocupou a área do antigo tanque. A origem da fonte primitiva é desconhecida. Durante o Inverno ainda corre um fio de água, no Verão seca completamente.

Na década de 1990, foi autorizada na vertente oposta à fonte uma urbanização mesmo em cima da ribeira, mais próximo só mesmo dentro do ribeiro! Fonte e urbanização são, hoje, vizinhos inseparáveis.

Na década de 1930, as suas águas chegaram a ser exploradas comercialmente. A água, que foi analisada pelo Professor Charles Lepierre no Laboratório de Química Analítica do Instituto Superior Técnico de Lisboa, era ‘cloretada sódica, muito bicarbonatada, cálcica e sulfatada magnésica’ e estava ‘isenta de contaminação’ como nos informa um dos dois anúncios publicitários existentes no Arquivo Museu da Santa Casa da Misericórdia da Ericeira. Era comercializada em garrafões e bilhas de barro de 10 a 11L ao preço de 2$50, um preço exorbitante para a época e só acessível a bolsos endinheirados.

O segundo anúncio publicitário refere o seguinte: ‘Água da Fonte da Margarida, Serra das Lombas (Carrasqueira), Ericeira, A melhor e mais excelente água de mesa, própria para consumo, Evitai beber águas retardadas e comprai só a Água da Fonte da Margarida’.

O depositário era António Franco Caiado com estabelecimento na Rua 5 de Outubro, 8, Ericeira. Vendia-se em todos os estabelecimentos da região.


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Francisco Esteves, Fevereiro de 2009.

Referências:

[1] Santos, L. M., (1996), As Águas, os Rios e as Fontes da Ericeira, Mar de Letras Editora, Ericeira.

[2] Silva, J. O. L., (1933), Anais da Vila da Ericeira, Imprensa da Universidade de Coimbra.

[3] Vilar, M. do C., (1996), Carta do Património do Concelho de Mafra, Fontes, Chafarizes e Bicas, in Boletim Cultural da C. M. de Mafra.

[4] www.aguas.ics.ul.pt/lisboa_stamarta.html


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